O aumento da sífilis no Brasil. E as campanhas de prevenção.

quinta-feira, 28 de novembro de 2019 13:31:32 America/Sao_Paulo

Registros da doença sexualmente transmissível vêm crescendo no país desde 2010. Para especialista, é preciso incentivo a realização de testes com mais frequência

Houve um forte aumento nos registros de casos de sífilis no Brasil. Entre 2010 e 2018, a taxa de infecção pela doença aumentou de 2,1 casos para cada 100 mil pessoas para 75,8 por 100 mil pessoas.

Os dados são do Ministério da Saúde, no boletim epidemiológico mais recente sobre a doença, do final de outubro de 2019. A sífilis é uma infecção sexualmente transmissível provocada pela bactéria Treponema pallidum.

Aumentaram também os casos de gestantes infectadas pela doença e o de bebês que nasceram contaminados pela sífilis. Os casos em que o bebê é infectado ainda no útero são chamados de “sífilis congênita” e são especialmente preocupantes, pois podem levar a mãe a abortar ou causar surdez ou deficiências cognitivas nos bebês.

Como é a transmissão?

Por relação sexual sem camisinha, incluindo sexo oral, e da mãe para o filho durante a gestação ou o parto. A infecção pode ser adquirida mais de uma vez na vida

Sintomas

Inicialmente, pode se manifestar através de uma ferida no local de entrada da bactéria, como o órgão sexual ou na boca. Não há dor ou coceira. Depois de semanas ou meses, já em sua fase secundária, a sífilis pode causar manchas no corpo, especialmente na palma das mãos e dos pés. A fase terciária da doença pode aparecer após 40 dias, com lesões na pele e nos ossos, no sistema cardiovascular e neurológico. Há risco de morte

Diagnóstico e tratamento

Há um teste rápido, disponível no SUS (Sistema Único de Saúde), capaz de diagnosticar a doença em 30 minutos. O tratamento é feito com o antibiótico penicilina. O paciente e eventuais parceiros sexuais devem ser tratados.

O aumento dos registros de sífilis

A taxa de pessoas com sífilis adquirida aumentou 22% entre 2018 e 2019, segundo o Ministério da Saúde — de 59,1 casos foi a 75,8 para cada 100 mil habitantes.

A sífilis entre gestantes também teve uma alta importante, de 25,88% entre os dois anos, chegando a 21,4 casos para cada 100 mil gestantes. Já a sífilis congênita aumentou 5,88%, para 9 casos a cada 100 mil bebês.


O que pode estar por trás do aumento?

Em entrevista ao Nexo, o infectologista Ricardo Vasconcelos, ligado à Universidade de São Paulo, afirma que as informações do Ministério da Saúde sobre a sífilis devem ser encaradas com ressalva.

Ele ressalta que 2010 foi o primeiro ano em que o Ministério da Saúde passou a coletar, sistematicamente, dados sobre a sífilis adquirida, ou seja, transmitida sexualmente.

Até então, coletava-se apenas dados a respeito da sífilis congênita e entre gestantes, já que o maior risco da doença é sobre bebês. Entre adultos, são raros os casos de complicações graves.

Por isso, ele acredita que grande parte do aumento se deve ao aperfeiçoamento das notificações desde que elas foram instituídas.

“No resto do mundo está tendo um aumento, mas não tão explosivo”, disse. Nos Estados Unidos, por exemplo, houve aumento de 14% nos novos casos de sífilis entre 2017 e 2018. E, na Europa, um aumento de 70% entre 2010 e 2019.

Isso porque, o processo para registrar um novo caso inclui: imprimir uma ficha, preenchê-la à mão, fotografá-la e enviar a foto digital por e-mail para o Ministério da Saúde.

Os efeitos de campanhas de prevenção

Segundo Vasconcelos, a mudança nos registros ocorreu após as autoridades perceberem que, para combater a doença, é necessário acompanhar a ocorrência de qualquer tipo de infecção, e não apenas os casos mais graves.

O Ministério da Saúde lançou em outubro de 2019 um vídeo para promover a prevenção de infecções sexualmente transmissíveis, como a sífilis que não é, no entanto, citada nominalmente. Na peça, jovens olham imagens de sintomas de doenças sexualmente transmissíveis, na boca e nos órgãos genitais.

Eles reagem com nojo. No fim, a campanha recomenda a camisinha como forma de prevenção generalizada para qualquer infecção sexualmente transmissível. “Se ver já é desagradável, imagine pegar. Sem camisinha, você assume esse risco”, diz a peça.

Vasconcelos afirma que esse tipo de mensagem não funciona bem contra a sífilis, porque a doença pode ser assintomática. Ou seja, mesmo pessoas que não têm sintomas desagradáveis podem estar infectadas e transmitir a bactéria.

Além disso, ele ressalta que promover a camisinha dificilmente funciona como forma de prevenir contra a sífilis. Isso porque ela é facilmente transmitida pelo sexo oral, e a maior parte do público não usa preservativo durante esse tipo de ato sexual.

Vasconcelos avalia que a melhor estratégia de política pública para combater a doença é incentivar a população a fazer testes com regularidade e, assim que detectar a bactéria, tratar-se contra ela. Para o médico, as campanhas deveriam focar na importância dos testes para infecções sexualmente transmissíveis, e não apenas no uso da camisinha.

Fonte: xpresso